(Alma, perguntas, medo, angústia, insegurança, visão, caminho, parada, roteiro, caos.)
“Ninguém sabe o que vem depois”...
Existem muitas perguntas, medo, angústias; a visão do caminho traz insegurança, porque exatamente não conseguimos enxergar, “ver o que vem depois”. É como se estivéssemos num filme sem roteiro, parados em meio ao caos. Dentro deste a alma pergunta: “o que vem depois?”: ninguém sabe!
Na verdade, deve ser assim, sempre foi assim, ninguém nunca soube e nunca irá saber, essa é a rotina da vida – e sua beleza, dizem alguns – para muitos ela é excitante sendo assim, imprevista, para outros e atemorizante.
Nossas vidas não estão atreladas a um “destino” de que não se pode fugir. Ela é produto de nossas escolhas, ações ou omissões. Passamos por ela buscando algo que faça sentido, olhando para fora e esperando desesperadamente que alguém nos diga se estamos ou não no caminho certo.
Pensamos depender dos outros, mesmo aqueles que se acham auto-suficientes, acabam por depender de algo ou alguém que lhes diga o que faz ou não sentido; de que estão ou não certos em suas “certezas”.
A busca é pelo reconhecimento, pela recompensa. Mas reconhecimento de que? Recompensa pelo o que? Por vivermos nossas vidas ancorados em um sistema automático de cobrança/recompensa/punição?
Ancorados sim, esta é a palavra: ancorados. Estagnados num caos organizados, onde as pessoas agem e reagem automaticamente, sem refletir, sem analisar como suas ações as afetam e afetam os outros. Assim ancoram suas vidas em sua “segurança”, em seu estresse – mas quem não o tem? – em seu colesterol descontrolado, ou sua obsessão por controlá-lo. Tentando remediar o irremediável: o vazio e a inutilidade de um viver sem razão, sem reflexão. E uma morte certa, enfim.
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Sim, mas este é o mundo em que vivemos e ele não vai mudar porque pensamos que tudo deva ser diferente. Porque eu penso que as pessoas devam se preocupar mais com as outras, com a forma como se tratam, com os pobres marginalizados, com o meio-ambiente, com dar menos importância ao lucro, ao “ganhar a todo custo” – bem, aí vão me chamar de “comunista” – isso não significa que algo , de fato, mude.
As pessoas, como eu mesmo, pensam encontrar do lado de fora algo que as resgate, que as faça reviver. Mas, como li esses dias no livro “Tirando os sapatos” de Nilton Bonder, nos vemos batendo sempre em portas que nunca se abrem, mas elas não se abrirão nunca, pois nos descobrimos batendo do lado de dentro.
Ou seja, o que precisamos está dentro de nós, sempre esteve ali. Mas, por outro lado, o fato de descobrirmos isso, não torna as coisas mais fáceis; acho mesmo que as torna mais difíceis ainda.
Pois eu não consigo ver o que preciso em mim, seria mai fácil que um “messias” me resgatasse de meu caos, não esperar que eu mesma encontre esses recursos. Dá mais trabalho, dói mais, é muito mais difícil e eu não queria que fosse assim.
Ainda falando do livro citado, ele mostra que, de fato existem suportes, ajudas externas que nos indicam, não caminhos, mas possibilidades de encontrarmos dentro de nós a força e a direção certas. Uma frase sobressai deste livro, onde se conta a história da peregrinação de Abraão, em um dado momento Deus o manda sair de sua terra para encontrar uma “terra prometida”, mas e Ele lhe diz “Lech lechá”, traduzido como “vai a ti”.
A “terra prometida não está fora, longe, distante, inalcançável. Para chegar a ela, Abraão teve de “ir a si”. O que isso significa, sua dimensão mais profunda há de ser descoberta no “vai a ti” de cada um.
No fazer de cada um, na alma criativa que cria e se recria, que anseia por se manifestar e traçar novos caminhos e não pode ficar estagnada senão perece, se atrofia e não se levanta. Não pode se levantar para um dia vazio, mais um dia de existência sem propósito, sem criação, sem sentido.
“Vai a ti” responde a pergunta inicial: “o que vem depois?”..vem o que descobrimos de libertador em nós mesmos. Eu ainda não cheguei a toda resposta, estou pelo caminho, estou “indo até mim”. Às vezes, confesso, preferia o casulo, aconchegante, a dependência desejada - mas que me consome - a “ir a mim”.
Mas sei que não posso prescindir desse ato criador de possibilidades e renovação; as escusas são desprezadas, a inércia rejeitada.
Não há refúgio fora de nós mesmos, não há para onde fugir, para onde se esconder do que temos de enfrentar nessa busca por uma vida plena e com sentido; sentido maior do que nós mesmos e nosso egoísmo quase, infantil, conseguem agora alcançar. Não haverá um “messias” que nos liberte de nossa responsabilidade com nós mesmos e com nosso caminho; ele vem apenas nos indicar o que temos de fazer, e dizer: “Vai a ti” (Lech lechá).
O que vem depois? Podemos saber...”Vai a ti”...
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