Pois então, eu adoeci. Adoeci da tal “doença invisível”. Sim, não tentem achá-la em exames de raio-x, não é um tumor. Definitivamente não se parece com um. Será fisco, uma “mera” manifestação de uma disfunção bio-química do corpo? Seria psicológico, na “alma”, naquela característica que nos difere dos outros animais, o que nos torna humanos? Ou seria ambos: biológico-químico e da alma-psicológico?
Não tenho recursos nem a ambição e sequer vontade de discutir essas teorias a fundo, deixo isso aos profissionais. Só sei o que sinto, Mas não sei o porquê sinto, mas sinto e muito.
O que faz com que alguém se perca de si, ao ponto de não se reconhecer mais, de atentar contra si, de nem conseguir se levantar pela manhã, ou nem poder dormir, o que sempre bem fizera antes. O que faz, o que acontece que torna alguém tão triste, e se põe chorar ao ponto de sentir dor física, sim a sentir dor, muita dor.
Há ainda o vazio, uma quase escuridão que nos arrebata a alma. Sim, temos alma. Será que ainda a temos? Onde ela está neste momento? Este é o momento que mais precisamos dela, de nossa alma, de nos sentirmos humanos de novo, de podermos dormir, acordar, olhar o sol ou a chuva e sorrir para eles (ou xingá-los).
Temos um espírito, uma alma e um corpo, dizem-nos que deveriam andar juntos em harmonia. Sei onde está meu corpo, está aqui ainda, jogado numa cama, mas está aqui. Mas a alma, esta se alijou, por vontade própria ou foi expulsa pelas proteínas, hormônios, neurotransmissores que, desabaladamente se atiraram em um labirinto em chamas, de onde não conseguem mais sair? Será que meu corpo conspirou contra mim e não a deixa voltar? .Ou teria ele, primeiro sido desafiado pelos sentimentos, pensamentos e decisões incessantes, confusas e contraditórias vindo de uma alma já há muito adoecida, dessa alma?
O espírito, ah, esse sopro divino (o pneuma do grego ou a rúach do heraico), sinto que as vezes se interpõe entre a alma e o corpo, tentando, ainda que em vão, uni-los novamente. Sim, o espírito e a trindade da harmonia, da sanidade, essa trindade despedaçada que me fez adoecer e sentir muito, sentir tudo muito intensamente.
Mas tenho buscado nutrir este meu “aliado”,o sopro divino, a “rúach” para que ao menos ele permaneça e me mantenha de pé para que eu possa seguir tentado juntar os pedaços e reconstruir os elos da alma. E aprenda a não sofrer por sentir tanto.
Mas, adoeci. Adoeci por sentir demais? Porque outros não adoecem também – não que eu deseje um mundo de doentes – mas como eles não tombaram como eu? Ou melhor colocando, por que só eu “tombei”? Ou será que estão doentes, só não sabem ou não querem saber? Ou eles são dos que “não sentem”?
Por que tudo isso, por que sentir demais, sentir tudo tão intensamente? Sentir, sentir nem todos “sentem”, mas eu sinto – e como sinto! Tudo parece ter uma dimensão extraordinária, tudo parece mais do que é. Ou será que realmente não é mesmo? Isso não saberei, por que, até hoje, só sei sentir e sentir muito profundamente. E sinto a dor a dor que não me deixa esquecer que estou no meio do labirinto bio-químico em chamas. Teria alguém me jogado lá? Eu me joguei lá? Não sei como sair, minha “trindade” não conseguiu ainda de lá me resgatar.
A vida cobra, o corpo cobra, a psique cobra, ficamos sem alma e nosso espírito vai se esvaindo. Nosso corpo se arrasta pelas horas do dia, esperando que este passe logo, esperando o sono que nos tire dessa dor, que nos alimente de sonhos onde tudo é diferente, os caminhos foram outros a colheita foi melhor, há rios e vales verdejantes, há abrigo, há segurança. Mas, se sonhamos, só nos restam sonhos complexos e desordenados, onde tudo se mistura e ainda vivemos num caos Por fim, acabamos por não saber mais se sonhamos o que vivemos, ou vivemos aquilo que sonhamos.
Adoeci - como num pesadelo - e só queria saber o porquê, mas não tenho a resposta. Não “vejo” minha doença, ninguém a vê. Será que a querem ver? Será que precisam vê-la? Sei que a quero longe, não preciso vê-la para saber que ela está aqui, eu a sinto, e a sinto muito intensamente. Ela dói, dor física, dor emocional, e eu choro, eu sempre choro.
Porque eu choro? Talvez por saber que adoeci e que tudo parece ser tão doloroso – ainda que não o seja. Ou quem sabe chore, procurando espantar de mim a tristeza, para que ela não fique lá dentro, presa, ela precisa sair - e sai pelo meu choro.
Sei que sofro agora, e mais ainda por não entender o porquê. Mas sei que meu espírito está ligado a outro Espírito e, como a palavra original hebraica “ruach” é feminina, sei que nesse Espírito há a mãe que acolhe e cuida de seus filhos. Que os olha e os consola. Não vou chorar para sempre, não vão meus dias ser para sempre cinzas.
Mas sei que agora sofro, que busco consolo, uma resposta, mas também sei que anda sinto, sinto a dor e a sinto muito intensamente...isso porque adoeci...
Nenhum comentário:
Postar um comentário