"Vemos nessas eleições uma celeuma sem precedentes, inflada pela mídia, onde se tem usado "dois pesos e duas medidas": a questão do aborto.
O que as pessoas se esquecem - ou parecem não querer ver - é que temas que dizem respeito a conceitos de fé e religião, são e sempre serão tratados - se forem tratados - no âmbito do poder legislativo, não tendo nada a ver com iniciativa do Executivo. Muito embora a maioria das pessoas ignorem a diferença entre os três poderes.
Muito se fala sobre o aborto: a Dilma e o PT vão "Legalizar", ela é a favor, mudou seu discurso agora nas eleições, etc. Mas aí está a hipocrisia de muitos: o fato de "ignorarem" convenientemente que o Serra foi o único candidato a fazer algo, na prática, a favor do aborto. Em 1998, quando estava no ministério da saúde, ele pôs em norma técnica todos os procedimentos para o aborto e tratamento de adolescentes e mulheres vítimas de violência sexual.
Mas isso faz dele um "demônio abortivo" - como disse um amigo - ? Não, pois como Ministro da Saúde, era, de certa forma, sua "obrigação" pensar no bem-estar dessas pessoas Era ele, agindo, como Ministro, nas funções do Estado em assuntos de saúde pública. Muito embora, o Ministro que o antecedeu, Carlos Albuquerque, tenha lutado ferrenhamente contra essa regulamentação e nunca vindo a assiná-la, por ser absolutamente contra o aborto. Mas o Ministro Serra, deixando de lado suas concepções religiosas, regulamentou a norma de uma lei antiga, mas que não era cumprida, estava apenas "no papel".
Essa norma, que regulamenta a prática do aborto nos casos que a lei permite é, em resumo, a idéia de que, agora, uma vítima de abuso poderia chegar no SUS com o B.O. e ter o feto abortado. Antes ela deveria entrar na justiça e ganhar o direito de fazer esse aborto, caso contrário ela seria judicialmente incriminada e penalizada. Devido a lentidão da justiça, muitas abortavam de qualquer jeito e não podiam nem ter assistência do SUS, sob pena de irem presas. Essa iniciativa é tucana e está contida no PNDH, o 1 e 2.
O PNDH 3 tem o mesmo texto que o 2 em relação ao aborto, com a diferença que previa tirar da esfera penal o ato do aborto. O problema é que as pessoas confundem descriminalização com legalização e então acham que o governo estava querendo tornar o aborto algo socialmente aceito, que iria fazer campanhas pró-aborto e outros frutos da total falta de informação.
Já os cristãos deveriam parar para pensar, pois, o que estão fazendo é algo totalmente condenável pela própria Bíblia: espalhar acusações falsas contra os outros. Especialmente odioso é este ato, quando se tem consciência da verdade: de que o que estão ajudando a espalhar não passa de mentiras e disseminação de preconceito usando de "dois pesos e duas medidas".
Se os cristãos se preocupam tanto com o aborto, homossexualismo e tudo mais, como explicar seu "esquecimento" de que, para Deus, tanto os homicidas, idólatras, feiticeiros, quanto os maldizentes e mentirosos tem o mesmo peso de pecado - ou será que existe uma "gradação" de pecados? Não de acordo com a Bíblia! Segundo ela, o destino de todos estes é o MESMO lago de fogo (Apocalipse. 21:7,8 - 1Corintios. 6:6 a 10).
Então teríamos lado a lado, uma mulher não cristã - que "não conhece a Deus" - e que fez um aborto e um "cristão" que maldiz uma pessoa. Pois estamos vendo nestas eleições centenas de "cristãos" que, para atacarem o aborto - na realidade, para atacar a candidatura da Dilma - estão se associando aos maldizentes e mentirosos, se tornando eles mesmos igualmente maldizentes e mentirosos.
O que o Serra realmente pensa do aborto não pesa nessa celeuma também? Será que o Serra pensou em Deus quando assinou aquela norma? Será que isso importa? Ou será que ele pensou somente na mulher e que se dane Deus e feto? O que o Serra faz e pensa não deve ser comparado ao que a Dilma faz e pensa? O problema é a Dilma? É coisa pessoal então? - Podem ver a incoerência e o preconceito nisso tudo?
A verdade é que, a mídia - especialmente empenhada nessas eleições - vêm explorando a religiosidade dos brasileiros apostando, como sempre, em sua ingenuidade e desinformação.
Só não vê quem não quer ou quem já nem consegue mais ver. Então fica bem claro que é só emoção falando por aí no Brasil. E é tanta emoção na mídia que dá até enjôo. Ela, é claro, está tratando de virar toda essa emoção cega, esse estouro da manada, contra o PT e a Dilma e livrando a cara do PSDB e do Serra que, afinal, foi o único dos "presidenciáveis" que já fez algo concretamente a favor do aborto.
Quando o Fantástico fez uma reportagem "encomendada" sobre o aborto, ele mexeu nas emoções dos brasileiros, levando as pessoas a agirem e reagirem pela emoção em detrimento da razão . Quando a gente sente demais, não pensa. E o que interessa agora para o PSDB é que os cristãos não pensem mesmo. E pelo jeito está funcionando, pois não há lógica nem raciocínio nenhum em exigir da Dilma algo que não tem nada a ver com a função do presidente e que, por total falta de coerência, não se exige dos demais candidatos.
Na realidade, a opinião de Dilma sobre o aborto é exatamente a mesma de Serra, com a diferença de que, enquanto o Serra é o único candidato que já fez algo em favor do aborto, a Dilma foi a única a se comprometer a não tomar nenhuma iniciativa em relação a esse tema - até porque isso é da alçada do legislativo. Infelizmente, como já foi dito, a maioria das pessoas no Brasil não sabem nem a diferença entre os três poderes.
Para mim essa questão é puramente de preconceito religioso. O Serra também só se posicionou contra o aborto depois dessa celeuma, mas a mídia não o expõe como o autor dessa norma. E os crentes fecham os olhos hipocritamente.
Essa histeria coletiva sem lógica nenhuma, sem raciocínio nenhum, é recheada de todo tipo de preconceito, porque o candidato escorraçado tem exatamente a mesma idéia do outro,mas as pessoas fecham os olhos, fingem não saber e continuam a espalhar mentiras e maledicências.
E muitos cristãos achando que estão fazendo um "favor a Deus". Só me pergunto: a que Deus? Pois que estão fazendo "um favor" isso estão, mas não é a Deus.
Pois eles têm cumprido um papel deplorável nesta eleição e se tornado as pessoas mais manipuláveis, maledicentes e preconceituosas que já pude ver, com um comportamento que vêm assustando os não cristãos pela insensatez e incoerência demonstradas. Um autêntico mau-testemunho!
Não tenho nada contra quem quer votar no Serra. Sou apenas radicalmente contra bater em um adversário político baseado em argumentos falsos e preconceituosos, cheios ódio cego e "dois pesos e duas medidas".
Na verdade fica evidente que o problema é outro, e não o aborto, se o fosse, o Serra também estaria sendo escorraçado, demonizado, odiado, mas não está.
Podemos desculpá-lo e dizer: "não, mas ele só regulamentou uma lei que já existia" - só que ele poderia ter se abstido de fazer isso, assim como seu antecessor se negou a fazer - e foi duramente criticado elo próprior Serra por isso. Mas parece que isso não importa, por quê? Porque Serra não é do PT?
É, se é o Serra sempre se dá uma desculpa conveniente. Mas pense: e se fosse a Dilma a ter assinado aquela norma? Coitada, hoje estaria destruída por completo pela imprensa e teria sido queimada viva em plena praça pelos religiosos de plantão, como nos tempos antigos em que a ignorância, preconceito e intolerância religiosas governava e assolava o mundo.
Sabe o que é isso? Hipocrisia! Isso é usar "dois pesos e duas medidas", esquecendo o que o Serra disse e fez e atacando ferozmente uma candidata que não pensa diferente de seu oponente quando a questão é o aborto.
Não dá pra só atacar a Dilma e fechar os olhos quanto ao fato do Serra estar mudando de discurso em relação ao aborto para enganar os crentes e a imprensa tentando encobertar que ele, na realidade, regulamentou a prática do aborto.
Ele foi muito claro e explícito ao mostrar que valorizava a saúde física e mental da mulher em detrimento do feto - não o julgo por isso, mas condeno sua hipocrisia.
Se o problema é o aborto, a regulamentação/normatização, descriminalização (que nada tem a ver com liberação), então não está todo mundo no mesmo barco: Serra, Dilma, PT, PSDB?
Pois, na ótica religiosa, o aborto permitido por lei - cuja norma o Serra regulamentou - é "menos aborto" que os demais?
Sim, estão todos no mesmo barco. A diferença é que, enquanto um já fez algo concretamente a favor do aborto, outra foi a única a se comprometer a não fazer nada em relação a esse tema. Até porque, como já foi dito, isso nada tem a ver com a função do Presidente da República.
Mas ninguém se importa, fazem ouvidos surdos, teimam em continuar vergonhosamente espalhando boatos e fomentando o ódio e a hipocrisia.
Fico pensando que se encontrarão, um dia, lado a lado, o "cristão" maledicente e aquelas pobres e infelizes almas que, em seu desespero e "ignorância espiritual" cometeram o pecado "mais grave" de interromper uma gravidez - estarão eles em níveis diferentes do lugar descrito em Apocalipse 21:7,8 e 1Corintios. 6:6 a 10? A Bíblia diz que não!
A verdade é que, se você não vota num candidato que é a favor do aborto de alguma forma - na teoria ou na prática - você, então, não vai votar em nenhum candidato, pois os dois têm a mesma idéia sobre o aborto.
Isso é relevante num processo eleitoral de escolha do Presidente da República? Honestamente, penso que não, pelos motivos já expostos: não tem nada a ver com a função de Presidente, mas é papel dos deputados e senadores.
Mas, se ainda assim acha relevante, deve honestamente considerar os fatos: na prática, apenas um se comprometeu a nada fazer em favor do aborto; enquanto, pela mão do outro, a prática foi devidamente regulamentada para os casos em que a lei permite. Mas, estranhamente, somente o primeiro está sendo escurraçado - porque será?"
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Por fim, deixo todos com parte do texto do Noblat - não conhecido por ser favorável ao PT, ao contrário - o restante do texto, muito interessante, por sinal, pode ser conferido em seu blog:
"(...)
Uma coisa é Dilma ter dito que é a favor da descriminalização do aborto. Outra coisa é Serra, como ministro da Saúde, ter mandado o Sistema Unificado de Saúde (SUS) atender às mulheres vítimas de estupro e decididas a abortar como permite a lei.
De acordo? Menos! O ministro que antecedeu Serra no cargo se recusou a dar a ordem ao SUS. Por que?
Porque era contra o aborto mesmo nos casos previstos em lei – violência sexual e gravidez com risco de morte para a mãe.
Serra não estava obrigado a proceder de maneira diferente. Mas sensível à tragédia das mulheres que, tendo o direito a abortar, não dispunham de meios seguros para fazê-lo, orientou o SUS a socorrê-las.
Fez bem. Revelou-se um administrador humano. O Estado brasileiro é laico. Seu comportamento independe de doutrinas religiosas.
Na época, Serra poderia ter dito que era contra a descriminalização do aborto. E acrescentado que só agia daquela forma para ser coerente com a lei e tirá-la do papel. Não disse. Por quê?
Porque em consciência era – como continua sendo – favorável ao direito da mulher de somente ser mãe na hora que quiser. Esse, por sinal, era um dos muitos pontos que aproximavam o pensamento de Serra do pensamento da socióloga Ruth Cardoso, amiga dele e mulher do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
É leviano atribuir a Serra a condição de mentor da campanha que apresenta Dilma como assassina de criancinhas. Não é leviano, porém, acusá-lo de surfar na campanha tocada por eleitores seus na internet e por pastores e bispos em igrejas.
Com todas as letras, a mulher de Serra chamou Dilma de assassina de criancinhas. Pesou a mão. Ele a desautorizou? Não.
Sempre que pode ou que lhe perguntam, Serra afirma ser contra o aborto. Não perde a chance de retocar o perfil de um homem religioso.
No debate com Dilma promovido pela Band no último dia 1 disse ser contra o aborto “até por uma questão pessoal”. Não lhe perguntaram que questão era essa. A frase ficou boiando no ar.
Uma coisa é ser contra o aborto. Outra é ser a favor da sua descriminalização.
Todos são contra o aborto – até mesmo as mulheres que um dia abortaram.
Descriminalização tem a ver com não ir para a cadeia. Em grande parte do mundo, nenhuma mulher está sujeita à prisão por ter abortado. Serra não precisa acelerar seu raciocínio para entender isso.
Dá um show de cinismo quando mistura uma coisa com a outra ou quando finge ser contra o que nunca foi.
O show atinge seu clímax quando beija imagens de santos e até comunga. Para comungar, um católico aplicado como Serra deve ter-se confessado recentemente. Data de quando a última vez que ele se ajoelhou diante de um padre e confessou seus pecados?
...
A posição de Serra sobre o aborto é igual a de Dilma sem tirar nem pôr.
O acerto de Serra, se ele tiver sorte, será com a Justiça divina. "
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/
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